terça-feira, 5 de julho de 2011

Um novo paradigma organizacional

Sábado passado li no Facebook uma frase da minha amiga Rafaela Mambrini que fecha perfeitamente com o livro que estou lendo. Na verdade fazia um bom tempo que não comprava um único livro e este acabei comprando este muito por impulso.


E porque não comprar livros? Um, pelo preço deles, outro por estar com o tempo muito justo depois da chegada do maravilhoso Heitor há quase dois anos, e um terceiro motivo pelo fato de que hoje se tem acesso a quase tudo na web e a leitura tradicional acaba ficando em segundo plano.


Não estou me queixando disso, muito pelo contrário. Tirando o preço, que sim, acho abusivo, principalmente em um país em que as letras, assim como os professores, deveriam ser muito mais valorizados, a chegada do Heitor e a atual formatação da web em que através das redes sociais se chega, com qualidade, a todo tipo de conteúdo, são excelentes notícias que, cada uma a sua maneira, estão mudando a minha vida.


O Heitor, para quem não sabe, é meu filhinho de dois anos (obrigado David Coimbra, pela forma mais legal e singela que já li de tratamento de um filho) com a Rita, que é uma professora que ensina professores a difícil tarefa de alfabetizar crianças ainda no primeiro ano de escola. Pode parecer piada, mas tem muita criança-adolescente-adulto que chega no final do ensino fundamental sem estar alfabetizado. Sem saber ler. E não é só nos grotões do país não. E só para terminar o parágrafo: o Heitor é um amor, a Rita é o meu amor e a educação de base, a única forma de cidadania e desenvolvimento de um país.


Uma vez me disseram que escreve bem quem lê muito, é curioso, tem berço e cultura. Berço, não quer dizer dinheiro, posição social ou status. Assim como cultura, a muito ultrapassou os limites do seu significado clássico. Hoje tem a ver com tudo aquilo que agregamos em cada momento da vida, nos lugares onde passamos, nas coisas que lemos, que aprendemos e vivemos. E nos relacionamentos. A nossa cultura está em constante mutação e desenvolvimento. Para o bem e para o mal.


Dessa forma dizer que a cultura de uma empresa é boa ou ruim, forte ou fraca, pouco significa. Dizemos: “a cultura da empresa x é tradicional e da empresa Y é inovadora, moderna”. Mas e o que dizer do Papa tuitando em um Ipad? Ou no efeito dominó das recentes revoltas nos países árabes fomentadas pelas redes sociais? Sciedades tradicionais que viraram inovadoras de uma hora para outra? Não. Apenas organizações tradicionais, utilizando-se de novos instrumentos de comunicação.


Desta forma empresas tradicionais também podem utilizar-se de redes sociais, intranets, e outros meios modernos sem deixar de ser tradicionais na sua essência, na sua cultura. Isso vai mudá-las? Não.


O problema é que as pessoas mudaram. Não existe mais a pessoa entre 4 e 70 anos alheia as geométricas mudanças culturais que tornaram o mundo mais rápido, mais dinâmico, mais interativo e mais integrado. As crianças de hoje não sabem o que é a vida distante do virtual. Os atuais “velhos”, correram atrás e se relacionam pela web, sem culpa e sem falsa moral. Pagam contas, fazem compras e tem uma rede de amigos no Facebook ou no Orkut.


Fazer de conta que nada está acontecendo é tapar o sol com a peneira. E, infelizmente, é o que muitas das nossas organizações estão fazendo quando tem uma comunicação externa com sites, perfis no Facebook, Twitter, LinkDin, fazem vendas pela web e promovem seus produtos e serviços através de e-mail, blogs e sites de compras coletivas e internamente, não permitem que seus colaboradores utilizem estas ferramentas no seu dia-a-dia de trabalho.


Dizem que diminui a produtividade, que as pessoas vão fazer mau uso das ferramentes, vão “manchar” a imagem da empresa com comentários desorientados. Dizem que redes sociais é assunto do “pessoal do marketing” e que usar o linkdin, por exemplo, quer dizer que o colaborador está procurando uma nova colocação. Será?


Vendedor tem que vender. Financeiro tem que calcular. RH tem que contratar, treinar, avaliar e desligar (como se fôssemos lâmpadas). Suprimentos tem que comprar e o SAC tem que atender telefone. Muito simples.


Esquecem que estamos falando de pessoas que tem uma vida dentro e fora da empresa e independente da sua posição na organização, escutam, tem e expressam suas opiniões, tem seus anseios e fazem uso de redes sociais e demais ferramentas de comunicação 2.0, quer a empresa queira ou não.


Por que então não aproveitar esse imenso potencial que está agregado a todos os colaboradores, de maneira estratégica, para tornar as pessoas mais felizes, o ambiente de trabalho mais criativo e leve e para atingir os objetivos da organização?


Porque como falei alguns parágrafos atrás, isto não é uma questão simples. É uma questão de evolução da cultura organizacional. O Papa tuitar é uma coisa, mas os sacerdotes de todo o mundo trocarem experiências com seus fiéis através de uma rede social é muito diferente. Os xiitas e sunitas dos países árabes se mobilizarem através do Facebook para derrubar um governo é uma coisa, mas as mulheres do islã terem perfis no Orkut é outra coisa bem diferente. Questões de cultura.


A notícia boa é que, diferente dessas sociedades ultra tradicionais, as empresas que não quiserem ficar para trás e perder valor de mercado terão que evoluir em sua cultura organizacional. E ai é que entram os profissionais de comunicação interna. É através de um plano de CI estratégico que gere valor a organização e as pessoas que dela fazem parte, que é possível evoluir. Antes de ter uma comunicação interna 2.0 é preciso ter uma cultura organizacional 2.0 (gracias, Alejandro Formanchuk) em que todos possam ser, ao mesmo tempo, emissores e receptores de conteúdo. Sem preconceitos, sem discriminação, sem ficar preso às hierarquias. Pode demorar muito tempo para isso se concretizar? Pode. Mas de alguma forma, vai ter que se concretizar.


Antes que me perguntem onde quero chegar com esta miscelânea, explico. E este blog trata justamente disso. Da forma estratégica que as empresas podem utilizar a cultura organizacional e a comunicação interna para atingir seus objetivos, manter as suas pessoas, perpetuar a sua essência e ampliar seus resultados. Vamos debater, ler, estudar, interagir, experimentar, inovar, ousar nos divertir, além é claro, falar de pessoas e contar histórias.


E antes de terminar, para quem ficou curioso, no primeiro parágrafo, o livro que estou lendo é “Super Apresentações” que fala do metódo desenvolvido pela SOAP (Apresentações no Estado da Arte), maior empresa de apresentações do Brasil, para vender idéias e conquistar audiências. Por essas coincidências interessantes, “vender idéias e conquistar audiências” é um dos principais focos do trabalho da comunicação interna no processo de evolução para uma cultura organizacional 2.0, focada no resultado. O livro fala de contar boas histórias, com um visual que comunique e através de um bom apresentador. Estou adorando e recomendo.


Ah, ia esquecendo. A frase da Rafa é “histórias bem contadas podem mudar a maneira como as pessoas agem”. Quem sabe contando boas histórias corporativas mudamos as nossas organizações e, quando o Heitor estiver em uma delas e a educação for prioridade no Brasil, empresas e pessoas possam agir de maneira integrada e com um paradigma totalmente diferente do atual?


Um sonho, um insight, não sei. Mas um bom tema para debate, com certeza.

2 comentários:

  1. Belo Texto, poderia estar lendo em uma grande revista conceituada ou em algum jornal de renome.
    Parabéns.

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  2. Minha área não é a comunicação e sim a Educação, por tanto se eu estiver equivocada me dá um desconto.risos.
    Lendo teu texto fiquei pensando no conceito antropológico de cultura : 'Cultura é, um mapa, um receituário, um código através do qual as pessoas de um dado grupo pensam, classificam, estudam e modificam o mundo e a si mesmas." (Roberto da Matta)
    É justamente porque compartilham de parcelas importantes da cultura que um conjunto de indivíduos com interesses e capacidades distintas e até mesmo opostas, transformam se num grupo e podem viver juntos sentindo se parte de uma mesma totalidade.
    Partindo deste conceito, eu que não sou uma gestora de empresa, consigo ver que para uma efetiva evolução na cultura de uma empresa é necessário que se conheça as pessoas que fazem parte dela e que não hajam preconceitos, discriminações e hierarquias.
    Adorei teu texto, acho que és um comunicador muito competente e adorei que tenhas escrito sobre o trabalho que amas e o tenha lincado ao nosso "filhinho".
    A propósito, tu tbm és meu amor!
    parabens pelo texto.

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